
Retratos de existência
.png)
"A diversidade é uma força e não uma fraqueza! Ser quem você é sem se importar com o que vão pensar é libertador!"
"A diversidade é uma força e não uma fraqueza! Ser quem você é sem se importar com o que vão pensar é libertador!"





Vozes que transformam
Caminhos para a inclusão em Bauru nascem da escuta, da articulação e da luta por direitos
Em Bauru, a construção de políticas públicas inclusivas ganha força com associações e coletivos. A Associação de Mulheridades Transexuais e Travestis (AMTT) articula ações junto ao poder público e à sociedade civil, com o objetivo de colocar em prática direitos previstos em leis.
A semente da transformação
Dalilah de Fátima, travesti, educadora social, graduada em História pelo UNISAGRADO e graduanda em Pedagogia pela Unesp, é vice-presidenta da AMTT e atua na defesa da população Lésbica, Bissexual, Transexual e Travesti (LBTT).
“Sempre atuei nos movimentos sociais de Bauru e mantive uma forte ligação com a cultura e a política. Mas em um determinado momento, percebi que já não me encaixava mais na ótica partidária. Foi então que iniciei minha graduação em Pedagogia e comecei a amadurecer outras formas de atuação”, contou.
O encontro com Sophia Rivera, idealizadora da AMTT, foi decisivo.“Quando a Sophia falou que queria fundar uma associação, eu topei. Nosso trabalho é articular com o poder público e transformar em realidade aquilo que já está previsto em lei”, explicou Dalilah.
A AMTT atua em quatro eixos: renda, trabalho, saúde e educação, articula políticas públicas já existentes para que direitos da população trans, lésbica e bissexual se tornem efetivos.
Entre políticas e pertencimento
O sentimento de pertencimento é um dos principais caminhos para a inclusão. A pesquisa “Apoio social na autoestima e identidade social de pessoas trans brasileiras” realizada para a revista Psico da PUCRS em 2018, afirma que o suporte coletivo fortalece a autoestima e ajuda a reduzir o impacto da discriminação. “Entrar na AMTT mudou a minha vida. Consegui espaço, trabalho, renda. Nasceu uma outra Dalilah, com uma nova perspectiva de mundo”, conta.
Sebastian Vitagliano, multiartista transmasculino, formado em Artes Cênicas pela Universidade Estadual de Londrina (UEL) e presidente do Comitê de Arte e Cultura da AMTT, destacou que a associação tem movimentado a cidade politicamente. “A primeira marcha trans foi realizada este ano, o que mostra o quanto estamos cruzando fronteiras, mesmo em um contexto conservador.” Para ele, a arte conecta militância e afeto. “O que eu crio para mim, passo a criar para o coletivo, e isso é muito potente”, afirmou.
Saúde e estrutura
No Ambulatório Trans, vinculado ao Centro de Testagem e Aconselhamento (CTA), pessoas trans e travestis têm acompanhamento psicológico, endocrinológico, social e psiquiátrico, além de encaminhamentos cirúrgicos pelo SUS. Criado em 2020, o ambulatório surgiu a partir de reivindicações dos coletivos, do Conselho de Atenção à Diversidade Sexual (CADS) e de outras associações que buscavam um serviço voltado a essa população do município.
Funciona em uma casa adaptada, com consultórios no lugar de cômodos tradicionais. Paredes com cartazes de conscientização e uma bandeira LGBTQIAP+ recebem os pacientes, enquanto placa na entrada informa que o espaço é aprovado e certificado pela Prefeitura e pela Secretaria Municipal de Saúde.

Recepção do Centro de Testagem e Aconselhamento (CTA) e do Ambulatório Trans, em Bauru (SP)
“Entendemos saúde não como ausência de doença, mas como cuidado e efetivação de direitos. A transição é também uma expressão. Nosso papel é acolher essas vivências sem julgamentos”, explicou Alessandra Mayumi Toshioka, psicóloga clínica do ambulatório.
O ambulatório ainda enfrenta desafios. O compartilhamento do espaço com o CTA limita a capacidade de atendimento, e o crescimento do serviço esbarra em questões estruturais.
Dalilah de Fátima realizou seus processos de transição no CTA. “Muitos profissionais são realocados de outros setores, pois os concursos públicos não exigem especialização em saúde trans. Existe vontade de melhorar, mas falta estrutura”, comentou.
Sebastian reforça que o ambulatório ainda permanece invisível e que é fundamental articular a AMTT e outras entidades para tornar as políticas de saúde mais efetivas.
Redes que sustentam
O poder das redes é evidente. As rodas de conversa, as reuniões da AMTT e as articulações com a cidade mostram que a inclusão se constrói na prática e na convivência.
“Quando você vive com pessoas semelhantes a você, as chances das coisas darem certo são maiores. É muito mais íntimo estar com sua comunidade, porque ali você pode ser quem é, em plenitude”, disse Dalilah.
“Fazer parte de coletivos nos permite ter referências e nos ver em outras pessoas. Essas redes fazem o buraco da solidão ficar mais raso e abrem espaços de encontro, criação e respiro”, complementou Sebastian.
Os caminhos para a inclusão não são lineares, mas trançados por vozes que insistem em existir. Em Bauru, elas ecoam nas salas do ambulatório, nas reuniões da AMTT e nas ruas em marcha. Entre burocracias e afetos, o que se constrói é uma política da presença, que fala, age e transforma.
1º Mutirão de Retificação de Pronome e Gênero de Bauru
VOZES: Sophia Rivera - Presidenta e fundadora da AMTT; Antônio Marcos Orletti - Presidente do Conselho de Diversidade da OAB Bauru; Taylise Zagatto - Presidenta do Conselho Municipal dos Direitos Humanos; Roberta Sartorelli Bernardes; Mila de Almeida; Yvis; Luana de Sá - Femme Queen no Coletivo Ballroom Bauru; Leonardo França; Isaque e Dalilah de Fátima
No dia 20 de setembro de 2025, a Defensoria Pública em Bauru recebeu o primeiro mutirão de retificação de nome. Organizado pela AMTT, o encontro reuniu a população trans da cidade para acessar o direito de ter documentos que reflitam sua identidade.
A retificação de nome é o processo legal que permite corrigir ou alterar dados no registro civil, como prenome ou sobrenome, regulamentado pela Lei nº 6.015/1973, a Lei de Registros Públicos. Segundo o Ministério da Justiça e Segurança Pública, o pedido de retificação serve para corrigir dados na publicação de naturalização, como efetivação do nome social, correção de grafia do nome da pessoa naturalizada ou de seus genitores, data e país de nascimento, número do processo ou do documento de identificação com divergências.
O evento também contou com a oficina “Estética e poder: Ballroom, autoestima e identidades trans e negras”, mediada pela Femme Queen Luana de Sá Bordim, para proporcionar um espaço de troca e fortalecimento da comunidade.
Dalilah de Fátima, vice-presidenta da AMTT, informou que um segundo mutirão será realizado até o fim do ano, para alcançar ainda mais pessoas trans interessadas em retificar seus direitos.
