
Resistir é existir: protagonismo trans e travesti no Brasil
Considerada a primeira travesti documentada no Brasil, Xica Manicongo viveu em Salvador no ano de 1592. Originária do Congo, foi escravizada e vendida à um sapateiro. Desafiou normas e padrões de gênero ao recusar a identidade masculina forçada à ela até ser denunciada à Inquisição Portuguesa por “andar trajada como uma mulher”. Acusada por sodomia, Xica deveria ser queimada em praça pública. Para continuar viva, abriu mão de sua identidade de gênero e passou a se vestir como um homem da época. Jaqueline Gomes de Jesus, Pesquisadora-Líder do ODARA – Grupo Interdisciplinar de Pesquisa em Cultura, Identidade e Diversidade, destaca no artigo “XICA MANICONGO: A TRANSGENERIDADE TOMA A PALAVRA” como Xica Manicongo se tornou um símbolo de luta e resistência para a comunidade trans, que continua a enfrentar desafios na sociedade atual.
Historicamente, pessoas trans e travestis foram submetidas à marginalização social, altos índices de violência, exclusão educacional e barreiras no acesso ao mercado de trabalho e aos serviços de saúde. Nesse sentido, Anderson Leno Barbosa, Presidente do Coletivo Existir, que luta pelos direitos da comunidade LGBTQIAPN+ na cidade de Bauru-SP, reforça a importância do movimento trans. “Em primeiro lugar, o movimento tem como eixo central a defesa da vida e da dignidade, denunciando a violência e reivindicando condições básicas de sobrevivência, como moradia, emprego, saúde e educação”, explica Anderson. Além disso, a atuação do movimento foi fundamental para conquistas jurídicas e sociais, como o
direito à retificação de nome e gênero em documentos oficiais, o acesso a políticas públicas e a crescente inserção em espaços políticos e acadêmicos. “Tais conquistas resultam diretamente da luta organizada e da mobilização contínua, que desafia estruturas de exclusão e transfobia. O movimento rompe com séculos de silenciamento, colocando pessoas trans e travestis como protagonistas de sua própria história”, completa o
Presidente. Isso não apenas eleva a autoestima individual, mas também amplia o debate público sobre igualdade, inclusão e justiça social, influenciando políticas e mentalidades.
Para Alice Romanoff Capatto, membro atuante do Coletivo Existir, dar visibilidade à comunidade trans é um passo essencial para a promoção da igualdade, da inclusão social e do reconhecimento da dignidade humana. “A visibilidade não deve ser entendida apenas como exposição, mas como um processo de valorização, que assegure representatividade, respeito e voz ativa às pessoas trans em diferentes espaços”, ela afirma. Uma das principais estratégias para que isso aconteça é o fortalecimento das políticas públicas
voltadas à população trans e a participação direta dessas pessoas no poder. “Incentivar a presença da comunidade trans em espaços de decisão como conselhos, conferências e cargos eletivos também fortalece o protagonismo e assegura que as demandas sejam apresentadas de forma direta, por quem vivencia essas realidades”, defende Alice.
Retratos de existência




Entrevista Pingue-Pongue:
Josy Ellerbrock
Entrevista Pingue-Pongue:
Alice Siena
Josy Ellerbrock, 30 anos, se formou em Psicologia pela UNIP de Araraquara e atua como psicóloga, com foco no atendimento a pessoas LGBTQIAP+, desde 2022. Comenta sobre os principais desafios da saúde mental de pessoas trans, os impactos da transfobia no bem-estar psicológico, as dificuldades de acesso a direitos básicos e a importância de políticas públicas e redes de apoio.
Quais os principais desafios emocionais que pessoas trans enfrentam hoje no Brasil?
Rejeição familiar, preconceito social, violência e disforia de gênero. Isso gera ansiedade, depressão, baixa autoestima e traumas.
De que forma a transfobia afeta a saúde mental?
Muitas pessoas passam a duvidar de si, se sentem insuficientes e vivem em alerta constante por medo da violência. Isso aumenta os riscos de isolamento, automutilação e até ideação suicida.
O acesso ao trabalho, à saúde e à educação impacta nesse quadro?
Sim. A exclusão reforça a marginalização e traz desesperança. Ainda vemos avanços, como cotas e ambulatórios trans, mas a evolução é lenta.
Quais etapas da transição costumam trazer mais sofrimento psíquico?
A social, pelo medo da rejeição; a legal, pela burocracia; e a médica, pela falta de acesso a hormônios e cirurgias. No SUS, a fila é enorme e o atendimento ainda é precário.
Que momentos da transição costumam trazer alívio?
Ser chamado pelo nome correto, receber apoio da família, ver mudanças corporais desejadas e obter documentos adequados. Isso fortalece a autoestima e saúde mental.
Qual o papel da rede de apoio?
Essencial. Família, amigos e grupos trans dão pertencimento, proteção contra a transfobia e ajudam no processo de afirmação da identidade.
Como o acompanhamento psicológico pode reduzir os impactos da exclusão social?
O consultório é um espaço seguro para ser autêntico, sem máscaras. Ali a pessoa pode falar sobre exclusão e preconceitos, além de receber orientação para acessar direitos. Isso fortalece autoestima, inteligência emocional e orgulho da identidade.
Que mudanças sociais poderiam melhorar o bem-estar dessa população?
Educação sobre diversidade nas escolas, campanhas públicas contra a transfobia e políticas de empregabilidade. Reconhecimento social é fundamental.
Alice Siena, 21 anos, graduanda em Pedagogia pela Unesp de Bauru. Mulher trans, diretora do Laboratório de Estudos Cênicos na Unesp e atua na área há 2 anos. Na entrevista, fala sobre os desafios da inclusão escolar, as barreiras enfrentadas por estudantes trans, o papel da educação na construção de oportunidades e a relevância de políticas públicas, como cotas e medidas de combate à transfobia.
De que forma sua experiência como pessoa trans influencia sua prática educacional?
Me fez questionar o que é considerado “normal” e perceber que a escola reproduz violências naturalizadas. Isso sustenta meu compromisso de transformar práticas pedagógicas.
Como você avalia a inclusão de estudantes trans nas escolas e universidades?
Em geral, é superficial. Muitas vezes, não passa de integração: a pessoa está presente, mas não faz parte efetiva do grupo.
Quais são as principais barreiras para a permanência dessas pessoas na educação?
A escola já exige muito, e o Estado não garante as condições necessárias. Para pessoas trans, além da sobrecarga material, há estigmas, opressões e ameaças que tornam o processo solitário e doloroso.
Como a transfobia impacta o desempenho escolar?
Ela tira o motivo de engajamento. Muitas vezes parte do próprio professor. Se a escola é hostil, o estudante não encontra razões para permanecer, a não ser pela raiva e luta contra essas violências.
Qual o papel da educação na construção de oportunidades de futuro?
Ela garante acesso à riqueza imaterial da humanidade, mas sozinha não assegura emprego nem estabilidade. O mercado ainda fecha muitas portas.
Quais iniciativas ou políticas públicas você destacaria como positivas?
As cotas trans já são um passo importante. Além disso, medidas em outras áreas, como retificação de nome, ambulatórios especializados e criminalização da transfobia, também ajudam na permanência.
O que escolas e universidades ainda precisam implementar?
Mais que acolhimento, precisamos de condições materiais: auxílios, adaptações e docentes comprometidos em garantir acesso e combater opressões. A luta contra a transfobia não faz sentido sem enfrentar o sistema capitalista e colonial que a sustenta.
Como preparar professores e gestores para lidar com estudantes trans?
A formação continuada deveria contemplar esses debates. Mas, na prática, é sobrecarregada e não chega às questões de gênero e sexualidade.
